Sediada no Recife, a ONG já atendeu mais de 42 mil pessoas em 26 anos de história e, hoje, realiza em média 300 testes por mês através do Projeto Testar e Cuidar reunindo testagem rápida, acolhimento psicossocial, redução de danos e geração de renda em um único endereço no centro da cidade
Ascom / Yan Santino - Duxi
Por, Paulino Andrade/FN
No Brasil, o Ministério da Saúde estima que cerca de 1,1 milhão de pessoas viviam com HIV ou aids em 2024. O dado reforça a necessidade de ampliar o acesso à testagem, ao diagnóstico e às estratégias de prevenção, especialmente entre populações que enfrentam maiores barreiras de acesso aos serviços de saúde. É nesse contexto que iniciativas comunitárias como o Projeto Testar e Cuidar, do GTP+, atuam como porta de entrada para informação, testagem e orientação. Há quase 26 anos, O Grupo de Trabalho em Prevenção Posithivo (GTP+) constrói, no Recife, um modelo de acolhimento para quem vive com HIV. Fundado em dezembro de 2000 por um grupo de cerca de dez pessoas soropositivas, entre elas Wladimir Reis, ativista pernambucano que dedicou a vida à causa até seu falecimento em 2025, o GTP+ foi a primeira organização do Nordeste liderada exclusivamente por pessoas que vivem com o vírus. Atualmente a instituição segue sob coordenação colegiada, mantendo viva a missão de seu fundador. Um dos pilares dessa trajetória é a testagem rápida: desde 2012, o GTP+ oferece o serviço gratuito como estratégia de prevenção, cuidado e acesso à saúde, hoje reunido no Projeto Testar e Cuidar. Atualmente, o projeto atende diretamente cerca de 500 pessoas por mês com atividades de orientação sobre HIV/Aids, doação de alimentos para pessoas em vulnerabilidade social e testagem rápida para HIV, sífilis e hepatites B e C. O principal marco do GTP+ reside em seu modelo de governança representativa. A organização inovou ao assegurar que a gestão, o planejamento de políticas públicas e a linha de frente do acolhimento fossem conduzidos diretamente por pessoas que vivem com HIV, consolidando um protagonismo inédito na formulação de estratégias de saúde no terceiro setor. Além dos projetos em andamento, o GTP+ mantém o Espaço Positivo, local de acolhimento a pessoas vivendo com HIV, na Rua Gervásio Pires, Galeria 436, no Centro do Recife. Apesar da atuação em diferentes frentes, algumas iniciativas estão suspensas por falta de recursos, como o projeto Fortalecer para Superar Preconceito, que promove palestras para a população privada de liberdade. O cenário internacional reforça a importância de manter estratégias de prevenção e diagnóstico acessíveis. Segundo relatório divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) em julho de 2026, cerca de 1,2 milhão de pessoas adquiriram HIV em 2025, enquanto aproximadamente 41 milhões viviam com o vírus em todo o mundo. O documento alerta que a redução de investimentos e de serviços de prevenção pode favorecer um ressurgimento da epidemia. Na América Latina, as novas infecções aumentaram 25% desde 2010, segundo o organismo. (UNAIDS) Testagem rápida: a porta de entrada O primeiro contato de quem busca o GTP+ costuma ser pela testagem rápida, gratuita, segura e sigilosa para HIV, sífilis e hepatites B e C, oferecida no Espaço Positivo. Quando iniciou o serviço, em 2012, a organização trabalhava inicialmente com o teste de triagem para HIV por fluido oral. Ao longo dos anos, a oferta foi ampliada e hoje inclui também os testes rápidos por punção digital, feitos a partir de uma pequena gota de sangue retirada da ponta do dedo. O atendimento funciona em sistema de porta aberta, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, na sede do GTP+, permitindo que qualquer pessoa procure a instituição espontaneamente para se testar, com acolhimento, orientação e sigilo. Atualmente, são realizados em média 300 testes por mês. O trabalho não se limita à sede: a equipe também realiza ações extramuros e comunitárias, levando testagem rápida e informações sobre Prevenção Combinada a instituições parceiras, equipamentos públicos, comunidades e ações de rua alcançando, entre outros públicos, pessoas em situação de rua, a população LGBTQIAPN+, pessoas privadas de liberdade, abrigos, Centros POP e o Programa Atitude, grupos que costumam enfrentar mais barreiras de acesso aos serviços convencionais de saúde. A prevenção continua sendo necessária Mesmo após décadas de avanços no diagnóstico e tratamento, o HIV continua sendo uma questão de saúde pública no Brasil. Dados mais recentes do Ministério da Saúde apontam que, entre 1980 e setembro de 2025, foram registradas 1.679.622 pessoas vivendo com HIV ou aids no país. O cenário reforça a importância da ampliação do acesso à informação, à testagem e às estratégias de prevenção. Nesse contexto, a prevenção não se resume ao uso de preservativo. A chamada Prevenção Combinada reúne diferentes estratégias que podem ser adotadas de acordo com a realidade de cada pessoa, como testagem regular, preservativos, PrEP (profilaxia pré-exposição), PEP (profilaxia pós-exposição) e diagnóstico e tratamento adequados. No caso do HIV, pessoas que realizam o tratamento corretamente podem alcançar carga viral indetectável e, nessa condição, não transmitem o vírus por via sexual. É justamente nessa perspectiva que o trabalho do GTP+ ganha relevância: aproximar a prevenção dos territórios e das pessoas, oferecendo testagem, informação, acolhimento e encaminhamento para os serviços de saúde. Acolhimento para quem acaba de saber O nome do projeto, Testar e Cuidar resume a proposta: o trabalho não termina com o resultado do teste. Além da testagem, a equipe do Espaço Positivo oferece informação, orientação e aconselhamento e, quando necessário, encaminha e acompanha o acesso das pessoas aos serviços de referência para HIV e outras ISTs. Do mesmo espaço partem também ações de doação de alimentos a pessoas em situação de vulnerabilidade social. Para o GTP+, esse acompanhamento após o diagnóstico é fundamental para que a pessoa se sinta acolhida, tenha acesso às informações necessárias e possa iniciar o tratamento oportunamente. No caso do HIV, com diagnóstico e tratamento adequados gratuitos pelo SUS é possível manter qualidade de vida e, ao atingir e manter a carga viral indetectável, não transmitir o vírus por via sexual. Outras frentes de atuação O Mercadores de Ilusões, o primeiro projeto da história do grupo, atuou com redução de danos e fortalecimento da cidadania junto a profissionais do sexo. Ao longo de sua trajetória, o GTP+ também já manteve a Confeitaria Escola, braço de geração de renda nascido da antiga Cozinha Solidária, que capacitou em gastronomia pessoas em vulnerabilidade. “Quando falamos em testagem, estamos falando também de prevenção, informação, acolhimento e cuidado. Muitas pessoas ainda enfrentam dificuldades para chegar aos serviços de saúde, seja por questões sociais, pelo estigma, pela discriminação ou por outras vulnerabilidades. Por isso, entendemos que também precisamos sair da instituição e chegar aos territórios onde essas pessoas estão”, destaca Alessandro Abreu, de 46 anos, Coordenador de Projetos no GTP+, à frente do Núcleo de Prevenção desde 2018 e integrante da Coordenação Colegiada da Articulação Aids em Pernambuco. De bairro em bairro até Genebra A atuação do GTP+ ultrapassou as fronteiras do Recife: a organização já enviou relatórios à ONU sobre a situação de pessoas vivendo com HIV e da população LGBTQIA+ nos presídios do Nordeste e, em 2023, participou do 53º Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. O trabalho é sustentado por parceiros como Fundo Positivo, UNESCO, Fundo Brasil e AHF Brasil, que apoia há alguns anos as ações de testagem e prevenção do Projeto Testar e Cuidar. Números que traduzem 26 anos de atuação Em 26 anos de existência, o GTP+ já atendeu mais de 42 mil pessoas. Atualmente, a organização beneficia diretamente cerca de 500 pessoas por mês com ações de orientação sobre HIV/Aids, doação de alimentos e testagem rápida que, somente através do Projeto Testar e Cuidar, soma em média 300 testes por mês, realizados por uma equipe de seis profissionais entre coordenação e educadores. “Nosso trabalho não acaba quando entregamos o resultado. Quando há necessidade, orientamos, acolhemos e fazemos os encaminhamentos para os serviços de referência. A pessoa precisa compreender que um diagnóstico não significa o fim de sua vida. No caso do HIV, existe tratamento gratuito pelo SUS e é possível viver com saúde e qualidade de vida. Testar é também uma forma de cuidar de si e das outras pessoas”, reforça Alessandro Abreu, Coordenador de Projetos no GTP+ . Serviço GTP+ — Grupo de Trabalho em Prevenção Posithivo Rua Gervásio Pires, Galeria 436, Centro, Recife (PE) Testagem gratuita, segura e sigilosa para HIV, sífilis e hepatites B e C — sistema de porta aberta, sem necessidade de agendamento Atendimento: segunda a sexta-feira, das 9h às 17h Parceria: AHF Brasil gtp.org.br | Instagram: @gtposithivo Contato para entrevistas: Nance Ferreira | 81988828276
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