sábado, 20 de junho de 2026

Morte que Segue, Morte que Segue

 Autor: Daniel Agra


De, André Soares Monteiro

Por, Paulino Andrade/FN


As praças,

ocas,

desabitadas,

ou sequer paridas.

Demolimos o improvável:

o verde.

E caminhar de cara ao vento

virou aventura com grife de "trilha".

O campo?

Um santuário de passagem, relíquia,

exotismo de um tempo que já não nos pertence.

A cidade, esse invólucro sem alma,

atestado de presenças ausentes.

Rostos acesos pelo azul das telas,

cruzando-se às cegas,

um murmúrio de mil solidões.

No peito deste asfalto,

só a saudade tem batimento.

Saudade de escalar o tronco das árvores,

de respirar o aroma da terra molhada.

Uma memória fantasma do céu,

de quando o corpo ainda sabia voar.

Que vida é esta que acumulamos?

Desperdiçamos os dias

no que é estéril.

Atulhamos a mente

com o entulho que nós mesmos parimos,

e consumimos, dóceis,

a escória que outros fabricam.

Nesse transe,

juramos que isto é viver.

Cegos ao nosso próprio ouro,

moldados por vozes alheias

que ditam o que deve ou não importar.

A rota de fuga, contudo,

sempre esteve ali:

contemplar a terra.

Deixar-se conduzir

por seu pulso sereno, indivisível.

Mas escolhemos tratá-la como inimiga.

Somos a praga que a devora,

o vírus que a extingue.

E, no processo,

asfixiamos nossa própria humanidade,

sorrindo,

fingindo que esta farsa é normal.

(A arte em forma de quadro pertence ao meu amigo e confrade André Catamisto, esculpida em despojos recicláveis. Siga-nos em @euagra. A arte e estes versos livres pertencem ao vento, desde que se honre sua raiz.)

La Muerte que Sigue

La Muerte que Sigue

Autor: Daniel Agra

Las plazas,

vacías,

olvidadas,

o tal vez nunca nacidas.

Demolimos lo improbable:

el verde.

Y andar de cara al viento

se volvió una aventura con etiqueta de "sendero".

¿El campo?

Un sitio de paso, una reliquia,

el capricho exótico de un ayer lejano.

La ciudad, un cascarón sin alma,

atestado de cuerpos.

Rostros encendidos por pantallas

que se cruzan a ciegas,

un susurro de mil soledades.

En las entrañas de este asfalto,

solo late la nostalgia.

Nostalgia de trepar a los árboles,

de respirar el aroma de la tierra mojada.

Una memoria fantasma del cielo,

de cuando yo también sabía volar.

¿Qué clase de vida es esta que habitamos?

Desperdiciamos las horas

en lo estéril.

Atiborramos la mente

con la basura que nosotros mismos parimos,

y consumimos devotamente

los desechos que otros fabrican.

Y bajo este trance,

creemos que esto es vivir,

mientras nuestro valor real se apaga,

títeres dóciles

que aceptan lo que es

y lo que no es importante.

El regreso, sin embargo,

era tan simple:

contemplar la naturaleza.

Dejarnos llevar

por su pulso sereno, indivisible.

Pero la declaramos enemiga.

Somos la plaga que la devora,

el virus que la extingue.

Y de este modo,

asfixiamos nuestra propia humanidad,

fingiendo que esta farsa es normal.

(La obra que acompaña este lienzo pertenece a mi hermano de arte André Soares Monteiro do Catamisto, esculpida en despojos reciclados. Síguenos en @euagra. El arte y estos versos libres son del viento, siempre que se honre su raíz.)

 Death, Ongoing

Death, Ongoing

By Daniel Agra

Squares,

hollowed,

forsaken,

or perhaps never born.

We tore down the improbable:

the green.

And walking in the wind

is now branded an adventure, packaged as a "trail."

The wild?

A weekend relic,

an exotic whisper of a world that was.

The city: a soulless vessel

swarming with bodies.

Faces blue-lit by screens,

passing through each other, blind,

a low hum of a thousand solitudes.

At the heart of this concrete,

only longing beats.

Longing to scale the branches,

to breathe the scent of rain-soaked earth.

A phantom limb of the sky,

recalling a time when I, too, knew how to fly.

What kind of life is this we hoard?

We squander our hours

on the hollow.

We gorge our minds

on the waste we manufacture,

loyal consumers

of the rot others sell.

And in this trance,

we call it living.

Blind to our own gold,

molded by whispers

that dictate what matters

and what must be discarded.

Yet the threshold

was always simple:

to look at the earth.

To let her pull us

into her quiet, seamless rhythm.

Instead, we wage our war.

We are the blight that feeds on her,

the virus that hollows her out.

And so,

we execute our own humanity,

smiling,

pretending this is peace.

(The accompanying canvas is the work of my brother-in-art, André Soares Monteiro do Movimento Catamisto, sculpted from the discarded. Follow us @euagra. The art and these free verses may wander, provided their roots are remembered.)

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