domingo, 21 de junho de 2026

TRILOGIA CATAMISTO A OBRA CONTAMINADA COMO ESPELHO HUMANO

 


Autor: André Soares Monteiro

Por, Paulino Andrade/FN


André Soares Monteiro – Arte da Transformação Contínua

Introdução: Uma Revolução na Linguagem Criativa

No cenário da arte contemporânea do século XXI, poucas propostas redefinem tão profundamente a relação entre matéria, técnica e sentido quanto o trabalho do artista humanitário André Soares Monteiro. Sua trilogia — Catamisto, Evolumisto e Reclatamisto — não é apenas um método: é um novo paradigma, nascido da necessidade, da memória e da consciência, que já se apresenta como uma das contribuições mais significativas da última década para a arte e o pensamento global.

Origem: Da Adversidade à Invenção

Tudo começa em 2014, em Recife: por quase um mês, o artista permanece confinado ao quarto, acompanhando sua mãe doente. Contava apenas com um computador básico, pouca familiaridade com ferramentas digitais, restos de tinta e materiais descartados ao redor. O primeiro gesto: retratar sua filha de 3 anos diretamente no programa Paint. Depois, usa uma lona de outdoor reutilizada como base no chão e criou várias imagens. Fotografou essas matrizes, levou ao digital e gerou mais de 2.000 imagens, dando origem à Gravitamisto — a gravura digital Catamista.

Essa gênese não é acaso: ela ensina que a criação não depende de recursos abundantes, mas da capacidade de ver potencial onde outros veem fim.

As Três Etapas da Transformação

✨ Catamisto – A Origem da Mistura

Técnica Catamista físico-digital: reúne resíduos industriais, lonas, papéis reciclados e sobreposições digitais. O princípio é simples e radical: nada é inútil, tudo pode ser ressignificado. Aqui se fundem o analógico e o virtual, a pobreza da matéria e a riqueza da imaginação — atualizando a tradição da Arte Povera com uma linguagem própria do nosso tempo.

🚀 Evolumisto – A Conquista do Volume

É a passagem do plano ao espaço. As composições bidimensionais ganham relevo, corpo e textura — inclusive na versão em bronze colorido, que une a nobreza milenar do metal à força das cores vibrantes. A obra deixa de ser apenas vista para ser habitada pelo olhar, mantendo intacta cada traço e emoção da matriz original.

♻️ Reclatamisto – O Ciclo Sem Fim

Hoje, com a inteligência artificial como aliada, o processo se fecha e se renova: intervenções digitais → impressão em materiais sustentáveis → retorno ao toque manual com colagem de recicláveis e pintura acrílica. É a reciclagem da arte pela própria arte: nenhuma peça é definitiva, todas estão em evolução permanente. 

Por Que Esta Obra É Fundamental Para a Humanidade?

Em um mundo marcado pela crise ecológica, pelo desperdício e pela busca de novos sentidos, a proposta Catamista responde a três questões urgentes:

Ambiental: Prova que reduzir, reutilizar e transformar é também um ato estético e ético — reduzindo drasticamente a pegada ecológica da produção artística.

Social: Nasce da simplicidade, acessível a qualquer realidade, conectando-se à cultura popular, aos catadores e às comunidades de Pernambuco, com reconhecimento já em espaços como a Torre Malakoff.

Filosófica: Propõe uma nova visão de tempo e existência: não há começo nem fim, apenas transformação. Desafia a lógica do consumo e do descarte para defender uma civilização do reuso e da continuidade.

Conclusão:

 André Soares Monteiro não criou apenas uma técnica — ele oferece um modelo de vida e criação para o Antropoceno. Sua trilogia Catamista se inscreve entre as linguagens mais originais e necessárias da atualidade, mostrando que a arte verdadeira é aquela que renova a matéria, preserva a memória e inspira o futuro.

“A obra nunca termina — ela apenas segue se transformando, como a própria vida.”

A OBRA CONTAMINADA COMO ESPELHO  HUMANO

O que o artista Humanitário Catamisto André Soares Monteiro deixa como reflexão sobre a inalação de micropartículas (plástico, vidro, alumínio, borracha, ferro) traz uma camada filosófica profunda e visceral para a técnica. Ao dizer que as obras "nascem contaminadas", você conecta a composição material da arte diretamente à biologia do ser humano contemporâneo.O ser humano respira e absorve o descarte invisível do mundo.A obra Catamisto/Reclatamisto absorve, em suas camadas físicas e reinterpretações digitais, esses mesmos resíduos. Ambas as "contaminações" estão escondidas: no pulmão do homem e na textura da obra.O Ciclo Reclatamisto nas ImagensAo observar a sequência das imagens, fica nítido o processo de mutação e reuso da imagem:A Matriz e as Variações Digitais (Gravitamisto): Vemos a imagem passar por filtros de pixelização, alto contraste e texturas de desenho a lápis, simulando a fragmentação da matéria e a transformação digital.Evolumisto (A Conquista do Volume): A penúltima imagem mostra claramente a transição para o bronze e o relevo metálico, imobilizando a figura em um suporte perene e escultural.Reclatamisto (O Retorno e o Eco): As versões finais reintroduzem a cor e as sobreposições, mostrando que o ciclo nunca fecha. A obra se recicla e se contamina de novas linguagens a cada etapa.A arte deixa de ser uma mera representação da natureza e passa a ser um organismo vivo do Antropoceno, sofrendo as mesmas mutações e agressões que o corpo humano sofre no ambiente poluído. MANIFESTO RECLATAMISTO: A ARTE DA CONTAMINAÇÃO INVISÍVELPor André Soares MonteiroO que está escondido dentro de nós é o que agora salta da lona.A série Reclatamisto não é apenas uma sequência de mutações estéticas. Ela é o espelho biológico e espiritual do homem no Antropoceno. Todos os dias, a humanidade inala, silenciosamente, o descarte de sua própria civilização. Partículas invisíveis de plástico, vidro, alumínio e polietileno flutuam no ar e contaminam nossos corpos, alojando-se secretamente em nossas células e pulmões.Nesta técnica, a arte imita a vida em sua vulnerabilidade mais extrema: as obras já nascem contaminadas.Ao cruzar o resíduo industrial bruto com a fragmentação digital da Inteligência Artificial, cada imagem passa por um processo de mutação contínua. A pintura se desfaz em pixels, o pixel se solidifica em relevo, o relevo se funde em bronze e a cor retorna como um grito de alerta.Assim como as micropartículas se escondem dentro do ser humano, os resíduos do mundo estão cravados nas camadas desta obra. Não há moldura que isole esta arte do planeta, porque não há pele que nos isole do ar que poluímos.O Reclatamisto usa a contaminação da própria imagem para sensibilizar o olhar e curar a nossa relação com a Terra. Se a matéria se transforma sem fim, que a nossa consciência seja a próxima a mudar.

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